Urbanização sem cidade, ou cidade para poucos: uma triste realidade

Por Maria Julia do Amaral Mazetto.

Habitação, cidade e utopia são questões que há muito permeiam as preocupações humanas. Ao longo da história muitos significados foram sendo agregados ao morar, que passou de simples refúgio a elemento da organização social, culminando na formação das cidades, palco de conflitos e transformações do homem. Sendo elas artefatos construídos socialmente, e por isso em permanente processo de transformação em resposta à dinâmica social e econômica na qual estão inseridas, refletem a maior parte dos fenômenos e características da sociedade atuante, sobretudo a segregação sócio-espacial.
Foi com o advento da Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo que seu papel foi mais relevante, uma vez que os movimentos sociais, econômicos, políticos e culturais ganhavam força nas ruas. Na passagem do século XIX para o XX, as cidades se configuraram como espaços da diferença, ao abrigar a enorme concentração de pessoas em um mesmo espaço-tempo, anônimas, trabalhando pela grande engrenagem capitalista, que exigia uma nova atitude frente à vida, ao outro, à sociedade e ao mundo. Era o nascimento das metrópoles.
No Brasil, a realidade não foi diferente, imperando durante o século XX a transformação dos centros urbanos em proporção de um dos maiores ritmos de desenvolvimento industrial do planeta. Porém esse desenvolvimento se deu no contexto de uma modernidade incompleta do capitalismo tardio e inacabado, sobreposto à “estrutura de uma sociedade agráriacolonial que não promoveu uma ‘revolução burguesa’ clássica. É uma peculiaridade que marca a heterodoxia das relações sociais no Brasil até hoje.” 1
A conseqüência foi a explosão das cidades em uma base colonial rudimentar sem a construção da infra-estrutura produtiva necessária. Explosão intensificada a partir da segunda metade do século XIX, com o fim do tráfico e a libertação dos escravos, que determinou um afluxo para as cidades. Com o advento da república, consolidou-se ainda mais seu crescimento. A diversificação dos investimentos oriundos do capital cafeeiro intensificou atividades de caráter essencialmente urbano, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, e as áreas centrais passaram a abrigar o glamour da elite, com cafés, teatros e cinema, concomitantemente a uma disseminação de cortiços e até mesmo construções populares nos morros, marcando já a segregação sócio- espacial tão complexa das grandes metrópoles de hoje.
Nas últimas décadas, essas aglomerações urbanas, e mesmo cidades médias, vêm apresentando um crescimento territorial urbano marcado pela implantação de grandes equipamentos de comércio, serviços, lazer e habitação, voltados para camadas de médio e alto poder aquisitivo, distantes dos centros urbanos tradicionais, pois a elite abandonou o centro em direção a novos bairros, que perdeu muito da sua função residencial e abriga cada vez mais funções terciárias (financeiras e econômicas), mudando, a partir da década de sessenta, a escala de segregação da cidade, gerando vazios urbanos, alvos da especulação imobiliária. A população, que antes não conseguia manter-se nas áreas centrais em razão do preço da terra, continua não conseguindo em razão dessa especulação, visto que os preços não baixaram, embora, em certa medida, a abandono do centro por parte das elites permitisse uma maior apropriação deste pelas camadas mais pobres, antes vetadas.
O resultado de tais acontecimentos é amplamente conhecido e criticado: os mega-conjuntos habitacionais para milhares de pessoas construídos na longínqua periferia da cidade, em lugares áridos e degradados onde a terra é mais barata. Seja pela presença de áreas residuais, sem destinação, pelas fachadas cegas dando para a rua, pela falta de áreas públicas ou pela ausência de outros usos que não o habitacional, resultando numa monofuncionalidade imprópria à vida urbana, esse modelo a qual reflete várias implicações no espaço urbano e na produção das relações sociais.
Segundo o filósofo Pierre Bourdieu, o espaço social se retraduz no espaço físico, de forma que o valor deste é determinado sob relações sociais de poder, resultando em
relações de caráter associativo e na exclusão mútua das posições que constituem esse espaço. Transparecem, portanto, fisicamente objetivados, espaços sociais distintos e justapostos de maneira confusa, pois:

“O poder sobre o espaço que a posse do capital proporciona, sob suas diferentes espécies, se manifesta no espaço físico apropriado sob a forma de uma certa relação entre a estrutura espacial da distribuição dos bens ou serviços, privados ou públicos. A posição de um agente no espaço social se exprime no lugar do espaço físico em que está situado, e pela posição relativa em que suas localizações temporárias e sobretudo permanentes ocupam em relação às localizações de outros agentes (…)”.2 (BOURDIEU, 1997)

Rogério Proença, sociólogo e crítico de urbanismo, revela que a subversão simbólica e de uso do espaço são mais que insatisfações ou rejeições de modelos, mas pode ser entendida como meio de se contrapor ao esperado, dado como certo, ou como manifestações de propriações do espaço urbano. A convivência é marcada por assimetrias e diversas possibilidades de usos, que demarcam e territorializam relações de poder. Para o autor, a transição do privado para o público – o bairro – seria um tipo de fronteira em que são inscritos os prolongamentos das relações sociais, e que demarcam a interdependência de significados. (LEITE, 2006).
Porém, sem infra-estrutura adequada, ou qualquer sentido de urbanidade e cidadania esses conjuntos logo se transformaram em um dos maiores problemas sociais das grandes cidades nos dias atuais (pobreza, especulação imobiliária, violência, guetos etc.). A periferia significa, nesse sentido, não apenas áreas fisicamente distantes do centro, mas o espaço da segregação da reprodução social da classe trabalhadora. (SANTOS, 2007).
Visto que os grandes conjuntos habitacionais situados na periferia são uma das principais marcas da arquitetura brasileira da segunda metade do século XX, fica evidente, em todos os níveis da dimensão pública das grandes cidades brasileiras da atualidade, o equivalente colapso social e ambiental dessas mega-aglomerações humanas.

“Se o habitat contribui para fazer o hábito, o hábito contribui para fazer o habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a fazer”.3 (Bourdieu, 1997)

No intricado caos da metrópole informacional atual, o corpo perde sua escala, sua identidade, suas fronteiras são cada vez mais absorvidas pelo espaço, misturadas à malha de interesses do capital e relações interpessoais e impessoais. O espaço público abriga cada vez mais realidades diferentes, simuladas, cenários repetitivos, confundindo o real e a “hiperrealidade” 4. Muitas conseqüências emanam desta desordem pós-metropolitana, como a negação do espaço público, pela retomada, novamente, de projetos que buscam uma sociedade perfeita, utópica e nostálgica – os
condomínios fechados, museus e shopping centers – além da obsessão pela vigilância
desses espaços, criando enclaves, cultivando a produção de memórias coletivas higienizadas e não conflituosas e intensificando a segregação sócio-espacial.
De acordo com o geógrafo e urbanista Jordi Borja, o grande desafio atual dos grandes centros urbanos é responder à dialética entre centralidade e mobilidade, não permitindo a urbanização sem cidade, que parece regra quando se trata de habitação social no Brasil. (BORJA, 2001).

1. RECAMÁN. Luiz. Forma sem utopia. Disponível em WWW.la2.com.br
2. BOURDIEU, Pierre. A miséria do Mundo. 1997, pp. 160.
3. BOURDIEU, Pierre. A miséria do Mundo. 1997, pp. 165.
4. SOJA, Edward W. Postmetropolitan Psychasthenia: A Spatioanalysis. In: Urban Politics Now. Ed. NAi Publishers. 2007. PP. 79

Maria Julia do Amaral Mazetto é formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Campinas.



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