Sistema de bloco cerâmico estrutural - Uma busca de dialogar desenho e canteiro
A busca por métodos de trabalho que otimizam o diálogo entre projeto e obra nos tem tomado um certo tempo, em paralelo com as discussões e decisões de projeto propriamente ditas. Na verdade, acreditamos que desenvolvendo alguns métodos de projeto e fazendo esta ligação, muitas vezes esquecida, entre o desenho do arquiteto e o papel do construtor, estaremos discutindo e praticando um sistema mais amplo de atuação.
Para esta pauta existe um série de opções e com certeza divergentes opiniões. Entretanto cabe a nós tentar pelo menos alguma delas. Neste contexto, tentamos nos aproximar da qualidade material dos elementos da construção e um método para que isso seja possível é a modulação extrema do desenho em relação aos blocos utilizados. Nas imagens em questão, utilizamos blocos estruturais cerâmicos, por sua qualidade e durabilidade, conforto e custo.
Com certeza existem ainda falhas no processo pois alguns métodos não são exibidos e seguidos por completo, mas exige educação tanto no desenho quanto na construção. De maneira mais pragmática, desenhar o que de fato se constrói, fortalece o conceito de projetar (v.t. […] / Fazer um projeto […] formar o desígnio de. […]Geom. Figurar ou representar por meio de projeções.)
6 comentários »Praça na comunidade da Vila Brandina
EntreArquitetos apresenta projeto desenvolvido para a praça na comunidade da Brandina em Campinas, durante festa na Sociedade Hípica de campinas.
A realização do bingo beneficiente, realizado pela ONG Recicla Lar, durante a festa da Hípica, desta vez foi em prol da construção da praça para a comunidade da Vila Brandina. O projeto foi desenvolvido pelo EntreArquitetos e aguarda disponibilização da verba para a execução, que deverá ocorrer até o ano que vem.
Apoio ONG Recicla Lar, Sociedade Hípica de Campinas e Pedro da Cunha Toledo (colaborador no projeto).
Sem comentários »Conscientização Profissional
Na última semana, a pedido de alguns funcionários do Banco Santander que, em ação solidária, estão desenvolvendo atividades sociais na E.E. Adalberto Nascimento em Campinas, membros do EntreArquitetos fizeram uma apresentação sobre a profissão Arquiteto.
A palestra desenvolveu aspectos relacionados às práticas profissionais de uma forma geral e particulariedades do dia-a-dia e dos trabalhos do escritório.
Agradecimentos especiais a Tatiana Vannucchi e Saulo Feliciano, aos alunos e professores da EE Adalberto Nascimento.
Sem comentários »Nasce mais uma obra
Processo de constução de residência em Louveira SP. Aprendizado e tentativas de engaste em concreto armada, para dar leveza à única escada da casa. 

Urbanização sem cidade, ou cidade para poucos: uma triste realidade
Por Maria Julia do Amaral Mazetto.
Habitação, cidade e utopia são questões que há muito permeiam as preocupações humanas. Ao longo da história muitos significados foram sendo agregados ao morar, que passou de simples refúgio a elemento da organização social, culminando na formação das cidades, palco de conflitos e transformações do homem. Sendo elas artefatos construídos socialmente, e por isso em permanente processo de transformação em resposta à dinâmica social e econômica na qual estão inseridas, refletem a maior parte dos fenômenos e características da sociedade atuante, sobretudo a segregação sócio-espacial.
Foi com o advento da Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo que seu papel foi mais relevante, uma vez que os movimentos sociais, econômicos, políticos e culturais ganhavam força nas ruas. Na passagem do século XIX para o XX, as cidades se configuraram como espaços da diferença, ao abrigar a enorme concentração de pessoas em um mesmo espaço-tempo, anônimas, trabalhando pela grande engrenagem capitalista, que exigia uma nova atitude frente à vida, ao outro, à sociedade e ao mundo. Era o nascimento das metrópoles.
No Brasil, a realidade não foi diferente, imperando durante o século XX a transformação dos centros urbanos em proporção de um dos maiores ritmos de desenvolvimento industrial do planeta. Porém esse desenvolvimento se deu no contexto de uma modernidade incompleta do capitalismo tardio e inacabado, sobreposto à “estrutura de uma sociedade agráriacolonial que não promoveu uma ‘revolução burguesa’ clássica. É uma peculiaridade que marca a heterodoxia das relações sociais no Brasil até hoje.” 1
A conseqüência foi a explosão das cidades em uma base colonial rudimentar sem a construção da infra-estrutura produtiva necessária. Explosão intensificada a partir da segunda metade do século XIX, com o fim do tráfico e a libertação dos escravos, que determinou um afluxo para as cidades. Com o advento da república, consolidou-se ainda mais seu crescimento. A diversificação dos investimentos oriundos do capital cafeeiro intensificou atividades de caráter essencialmente urbano, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, e as áreas centrais passaram a abrigar o glamour da elite, com cafés, teatros e cinema, concomitantemente a uma disseminação de cortiços e até mesmo construções populares nos morros, marcando já a segregação sócio- espacial tão complexa das grandes metrópoles de hoje.
Nas últimas décadas, essas aglomerações urbanas, e mesmo cidades médias, vêm apresentando um crescimento territorial urbano marcado pela implantação de grandes equipamentos de comércio, serviços, lazer e habitação, voltados para camadas de médio e alto poder aquisitivo, distantes dos centros urbanos tradicionais, pois a elite abandonou o centro em direção a novos bairros, que perdeu muito da sua função residencial e abriga cada vez mais funções terciárias (financeiras e econômicas), mudando, a partir da década de sessenta, a escala de segregação da cidade, gerando vazios urbanos, alvos da especulação imobiliária. A população, que antes não conseguia manter-se nas áreas centrais em razão do preço da terra, continua não conseguindo em razão dessa especulação, visto que os preços não baixaram, embora, em certa medida, a abandono do centro por parte das elites permitisse uma maior apropriação deste pelas camadas mais pobres, antes vetadas.
O resultado de tais acontecimentos é amplamente conhecido e criticado: os mega-conjuntos habitacionais para milhares de pessoas construídos na longínqua periferia da cidade, em lugares áridos e degradados onde a terra é mais barata. Seja pela presença de áreas residuais, sem destinação, pelas fachadas cegas dando para a rua, pela falta de áreas públicas ou pela ausência de outros usos que não o habitacional, resultando numa monofuncionalidade imprópria à vida urbana, esse modelo a qual reflete várias implicações no espaço urbano e na produção das relações sociais.
Segundo o filósofo Pierre Bourdieu, o espaço social se retraduz no espaço físico, de forma que o valor deste é determinado sob relações sociais de poder, resultando em
relações de caráter associativo e na exclusão mútua das posições que constituem esse espaço. Transparecem, portanto, fisicamente objetivados, espaços sociais distintos e justapostos de maneira confusa, pois:
“O poder sobre o espaço que a posse do capital proporciona, sob suas diferentes espécies, se manifesta no espaço físico apropriado sob a forma de uma certa relação entre a estrutura espacial da distribuição dos bens ou serviços, privados ou públicos. A posição de um agente no espaço social se exprime no lugar do espaço físico em que está situado, e pela posição relativa em que suas localizações temporárias e sobretudo permanentes ocupam em relação às localizações de outros agentes (…)”.2 (BOURDIEU, 1997)
Rogério Proença, sociólogo e crítico de urbanismo, revela que a subversão simbólica e de uso do espaço são mais que insatisfações ou rejeições de modelos, mas pode ser entendida como meio de se contrapor ao esperado, dado como certo, ou como manifestações de propriações do espaço urbano. A convivência é marcada por assimetrias e diversas possibilidades de usos, que demarcam e territorializam relações de poder. Para o autor, a transição do privado para o público – o bairro – seria um tipo de fronteira em que são inscritos os prolongamentos das relações sociais, e que demarcam a interdependência de significados. (LEITE, 2006).
Porém, sem infra-estrutura adequada, ou qualquer sentido de urbanidade e cidadania esses conjuntos logo se transformaram em um dos maiores problemas sociais das grandes cidades nos dias atuais (pobreza, especulação imobiliária, violência, guetos etc.). A periferia significa, nesse sentido, não apenas áreas fisicamente distantes do centro, mas o espaço da segregação da reprodução social da classe trabalhadora. (SANTOS, 2007).
Visto que os grandes conjuntos habitacionais situados na periferia são uma das principais marcas da arquitetura brasileira da segunda metade do século XX, fica evidente, em todos os níveis da dimensão pública das grandes cidades brasileiras da atualidade, o equivalente colapso social e ambiental dessas mega-aglomerações humanas.
“Se o habitat contribui para fazer o hábito, o hábito contribui para fazer o habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a fazer”.3 (Bourdieu, 1997)
No intricado caos da metrópole informacional atual, o corpo perde sua escala, sua identidade, suas fronteiras são cada vez mais absorvidas pelo espaço, misturadas à malha de interesses do capital e relações interpessoais e impessoais. O espaço público abriga cada vez mais realidades diferentes, simuladas, cenários repetitivos, confundindo o real e a “hiperrealidade” 4. Muitas conseqüências emanam desta desordem pós-metropolitana, como a negação do espaço público, pela retomada, novamente, de projetos que buscam uma sociedade perfeita, utópica e nostálgica – os
condomínios fechados, museus e shopping centers – além da obsessão pela vigilância
desses espaços, criando enclaves, cultivando a produção de memórias coletivas higienizadas e não conflituosas e intensificando a segregação sócio-espacial.
De acordo com o geógrafo e urbanista Jordi Borja, o grande desafio atual dos grandes centros urbanos é responder à dialética entre centralidade e mobilidade, não permitindo a urbanização sem cidade, que parece regra quando se trata de habitação social no Brasil. (BORJA, 2001).
1. RECAMÁN. Luiz. Forma sem utopia. Disponível em WWW.la2.com.br
2. BOURDIEU, Pierre. A miséria do Mundo. 1997, pp. 160.
3. BOURDIEU, Pierre. A miséria do Mundo. 1997, pp. 165.
4. SOJA, Edward W. Postmetropolitan Psychasthenia: A Spatioanalysis. In: Urban Politics Now. Ed. NAi Publishers. 2007. PP. 79
Maria Julia do Amaral Mazetto é formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Campinas.
Sem comentários »Ricky Joy
A discussão de maneiras sustentáveis de construção, vinculada a utilização de materiais vernáculos, diminuição de gastos energéticos e redução de emissão de poluentes têm sido uma das principais vertentes do cenário que envolve a mística do projeto arquitetônico. Muitas vezes este universo discursivo confunde e intitula estas vertentes sustentáveis a técnicas de baixa tecnologia ou alternativas.
Eis um exemplo de que a construção com elementos naturais, no caso a terra, como estrutura e beleza, pode ser sofisticada e atual. Rick Joy, arquiteto norte-americano graduado pela Universidade do Arizona, se especializou neste tipo de construção, onde a contemporaneidade funcional e um regate da proporção estética moderna pode ser enfatizada em estrutura de adobe e caixilhos contínuos de vidro.
Obviamente que a arquitetura apresentada por Joy se justifica ao analisarmos seu entorno. Paredes estruturais e externas em terra talvez só se sustentem tanto como idéia quanto como construção em climas e índices pluviométricos parecidos com o do deserto de Arizona e muito provavelmente esta discussão não se encaixe ao cenário brasileiro, mas eis uma referência.



Resenha do livro ‘Imaginar a Evidência’ de Alvaro Siza.
Por André Scarpa.
Gostava de comentar este livro, por que foi um livro que me surpreendeu. Não esperava, ao inicio da leitura, encontrar um discurso em prosa de Álvaro Siza tão claro e acessível, e ao mesmo tempo com idéias tão consolidadas, que como diz o próprio título, tornam se evidentes.
“Imaginar a Evidência” é um título perfeito, pois resume em si próprio toda metodologia projectual deste arquitecto, que neste livro exemplifica-a com as próprias obras e projectos. Ao longo de 3 museus, um restaurante, uma piscina, uma casa unifamiliar, um conjunto religioso, dois planos para cidades, e dois planos e projectos de habitação coletiva, Siza desenvolve o pensamento sobre a decisiva relação entre natureza e construção na arquitectura, a sabedoria instintiva que regulamenta o estudo das dimensões, das proporções e das relações dos espaços, e a importância de “aprender a ver” para o arquitecto, na criação de uma bagagem de conhecimentos que por fim se consolidam como conhecimento vago, instintivo, e que farão com que a solução de uma obra surja como óbvia e inevitável, ou em outras palavras: EVIDENTE.
O livro também trás um discurso interessante acerca do que consiste uma cidade, e de como o desenho dos espaços públicos é influênciado pelo estudo da cidade. Siza diz que não existe um monumento importante numa cidade sem a continuidade anônima de múltiplas construções, ou seja, deve haver um diálogo entre o tecido uniforme e contínuo das casas e os edifícios coletivos.
Muitas vezes o que hoje acontece é uma necessidade de se obter imediatamente uma imagem final do projecto, da intervenção, porém isso dificulta a interpenetração entre as várias partes da cidade. Temos de ter conciência de que “as cidades não nascem acabadas”, temos que ter conciência da importância do tempo.
Marcando conceitos como “arquitectura é geometrizar”, e que “nada que fazemos é absolutamnete novo” o arquitecto encerra seu discurso com o que foi para mim umas das frases mais bem colocadas do livro: “partir com a obcessão da originalidade é um processo inculto e primário”. Como é bom ler esse tipo de coisa hoje em dia.
André Araújo de Morais Scarpa está terminando a Faculdade de Arquitetura na FAUP - Porto, Portugal - onde desenvolve projetos.
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